sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Está em minhas mãos uma preciosidade: uma edição do anuário de rugby do jornal francês l´Equipe, do distante ano de 1982.
No artigo principal, Henri Garcia ( autor de “ A fabulosa historia do rugby”) discorre sobre algumas das expectativas para o jogo da bola ovalada, tendo em vista o ano de 1983, mas sobre tudo, a respeito do futuro do esporte, no médio e longo prazo.
O titulo do artigo: Imaginação !
Nele, Garcia fala sobre os rumores a respeito de uma tão sonhada Copa do Mundo, com ênfase nos choques entre as relações norte & sul , tão características do rugby, com seus memoráveis tours, advindos de uma época onde o mundo era menor, e que a falta de informações e registros mais precisos, construíam distancias e mitos.
A idéia central do texto vai na linha de expor o quão resistentes são os agentes conservadores. No caso, entendia o articulista, que as grandes nações do Norte temiam perder sua condição de “mestres do rugby”, no caso de uma notória vitória dos “aprendizes”, em um certame mundial.
Importante lembrar que vivíamos os tempos austeros do amadorismo imposto como lei geral. Fora isso, o mundo do rugby se expunha a critica internacional, devido a problemática condição da Republica da África do Sul. Ilustrando o artigo, temos uma foto de Stu Wilson (neozelandês) tentando passar pelo extraordinário abertura sul-africano Naas Botha, em um jogo entre Nova Zelândia e África do Sul. Este jogo (vitória dos All Blacks por 14 a 9), foi cercado de polemica, com intermináveis manifestações de ativistas políticos, contra o “furo” no boicote contra selecionados esportivos as África do Sul.
Tal situação grave permaneceu durante muitos anos. Em 1987, houve um quebra pau de proporções bíblicas por conta de um outro jogo entre Nova Zelândia e África do Sul, e em 1993, os Springboks foram pessimamente recebidos em Londres, para realização de um jogo contra os ingleses.
Situação difícil vivia o nosso esporte neste distante ano de 1982. Duvidas sobre a verossimilhança de se manter o amadorismo, debates sobre este aspecto e a condição mundial do esporte ( a criação de uma Copa do Mundo, a inserção da Argentina em um torneio anual...), e o trágico aprisionamento dos Springboks a condição política extra rugby.
Olhando por estes ângulos, não é possível deixar de notar como as coisas hoje estão mais fáceis. Contudo, ainda temos muitos reflexos destas questões ainda presentes.
A resistência contra um maior apoio as nações emergentes é evidente, o que impede que o rugby se torne de fato um jogo mundial.
Em parte, o cuidado dos conservadores e tradicionalistas tem mesmo a sua razão de ser. Na verdade, devemos a estes cuidados, o fato de o rugby ainda ser este esporte
“não prostituído” , como ocorre tristemente com outros... Enfim, como em tantos outros tópicos, resta definir um meio termo, entre a conservação dos valores e o não estrangulamento dos elementos saudáveis de renovação.
O anuário do L´Equipe ainda trás uma reportagem extraordinária sobre o “ ressurgimento dos Wallabies”. Tinha razão a revista. Em 1984 o esquadrão australiano venceria o Grand Slam europeu, contando com nomes como Mark Ella, Loane , Michael O´Connor, Tony Shaw, David Campese, Michael Linague ...Base da equipe que em 1991 conquistaria o primeiro dos dois títulos mundiais dos Wallabies.
Titulo mundial ! Enfim, cinco anos após o artigo de Henri Garcia, tínhamos finalmente um certame com esta caracterização. O que virá nos próximos cinco anos ?
Abraços,
Marcelo Wallace Paiva.
Ilustrando este artigo, foto do extraordinário full back francês, Sergue Blanco, um dos ícones do rugby dos anos 80.